Trip de Hobie Cat 16 entre a praia de Maria Farinha/PE e Japaratinga/AL foi sucesso!
TEXTO , FOTOS e VÍDEOS: Mario Roberto Arantes Dubeux
Trip de Hobie Cat 16 entre a praia de Maria Farinha/PE e Japaratinga/AL
Participantes da travessia:
• Barco 1: Guilherme Araújo
• Barco 2: Milena Araújo e Nicole Araújo
• Barco 3: Mário Roberto Dubeux (autor do texto) e Edna Melo

“Participamos do Festival de Velas de Maragogi, mas nossa trip de Hobie Cat 16 não tinha relação direta com o evento. A travessia já estava planejada havia algum tempo e acabou apenas adiada por alguns dias. Depois de observar com mais atenção o comportamento do vento, tomamos uma decisão importante: inverter o trajeto.
A ideia inicial era sair de Maragogi rumo a Maria Farinha, velejando para o norte. Isso significaria passar boa parte do percurso com vento contra. Como a previsão indicava ventos predominantes de leste a nordeste, optamos por fazer o caminho inverso, aproveitando melhor as condições. Assim, partimos de Maria Farinha (PE), seguindo para o sul, em direção a Japaratinga (AL), em uma navegação costeira de aproximadamente A distância direta pelo mar entre essas duas localidades seria de aproximadamente 100 a 105 milhas náuticas (≈ 185 a 195 km).
Decisão tomada, rota ajustada e espírito de aventura mantido.
A largada (ou quase)
O plano era zarpar às 8h30 da sexta-feira, dia 26. Missão praticamente impossível, considerando que um dos personagens centrais da façanha seria meu amigo Guilherme Araújo, comandante solitário do Barco 1. Pense em alguém metódico ao extremo, que se enrola para sair. Agora combine isso com alguém (eu, no Barco 3, ao lado de Edna Melo) absolutamente obcecado por cumprir horários. Resultado: atrasamos apenas 2 horas e 45 minutos — um verdadeiro milagre.
Saímos às 11h15… mas não sem antes Guilherme esquecer de colocar os bujões no barco.
— Eita… tô sem bujão!
— Volta! Volta!
E lá foi a gritaria na rampa do Cabanga, um dos clubes náuticos mais tradicionais do Recife, fundado em 1916 e berço de gerações de velejadores. Rimos, voltamos, resolvemos. Em toda viagem, o mais difícil é a partida. Mas partimos.
Costeando o litoral pernambucano
Logo de cara, pegamos contravento na cara. Fomos tocando os Hobie Cat em zigue-zague até Pau Amarelo, região que cresceu a partir de antigas comunidades de pescadores e veranistas. Depois de contornar a ponta, finalmente conseguimos manter uma rota mais reta, ajudados por um vento que girou levemente mais para leste.
Seguíamos em três Hobie Cat 16, todos carregados de tralha — bebida, barracas, mochilas e, no meu caso, até travesseiro. Conforto é prioridade.
• Guilherme Araújo seguia sozinho no Barco 1;
• Milena Araújo e Nicole Araújo comandavam o Barco 2;
• Eu, Mário Roberto Dubeux, e Edna Melo tocávamos o Barco 3.
À distância, meu irmão Ricardo e meu filho Victor nos acompanhavam pelo celular, tentando participar da aventura como podiam.
Cabo de Santo Agostinho: história e decisão
O atraso começou a cobrar seu preço. Ao passarmos pelo Cabo de Santo Agostinho, por volta das 16h, comentei com Guilherme que talvez fosse mais sensato mudar o plano e pernoitar em Muro Alto, deixando a Ilha de Santo Aleixo para outra ocasião.
O Cabo é um dos pontos mais importantes da história marítima do Brasil. No século XVI, foi referência da navegação portuguesa e palco de conflitos entre portugueses, franceses e holandeses. Próximo dali ocorreu a famosa Batalha de Tejucupapo, símbolo da resistência local durante a ocupação holandesa.
Guilherme, fiel ao estilo, foi categórico:
— Nada disso. Daqui até lá é uma hora e meia de velejada. Vai na frente e acha um lugar.
E lá fomos nós.
Rumo à Ilha de Santo Aleixo
Olhos no horizonte, ondas do oceano aberto e enormes tartarugas surgindo curiosas ao redor do barco. O vento melhorou, surfamos algumas ondas e seguimos com o coração acelerado, torcendo para chegar antes do pôr do sol.
Chegamos a tempo. Ufa.
Ilha de Santo Aleixo – Noite 1
A Ilha de Santo Aleixo nos recebeu com sua beleza bruta e silenciosa. Desde o período colonial, a ilha já servia como ponto de apoio para navegações costeiras e abrigo eventual para embarcações. Até hoje, mantém um ar quase intocado.
Meu irmão Ricardo, de Piedade, tentava nos orientar chagando em Serrambi por chamada de vídeo. A aproximação é delicada: pedras por todos os lados e, com a maré baixa, qualquer descuido cobra caro. É lindo de ver e traiçoeiro de navegar.
Montamos o acampamento. Eu e Edna conseguimos um banho de poço que valeu cada centavo dos R$ 20 investidos. Guilherme, Milena e Nicole ficaram no tradicional banho “tcheco-tcheco”, feito à base de caneca e resignação.
Além de nós, a ilha tinha apenas dois vigias e um cachorro preto, que resolveu marcar território deixando um presente nada simpático debaixo do barco. FDP.
À noite, rolou espumante e uma massa ao molho de galinha com creme de leite, preparada pelo gourmet Guilherme Araújo, que estreava um fogão de acampamento recém-ganho do Papai Noel. Aprovado com louvor.
Dormimos sobre o trampolim do Hobie Cat 16 — colchão improvisado que definitivamente não merece o título de “cama dos justos”. Ainda assim, com travesseiro e lençol, deu para descansar. Viramos de um lado para o outro a noite inteira, mas acordamos com o nascer do sol em uma ilha quase deserta.
Quase.
Às 7h30 começaram a chegar os barqueiros. Por volta das 10h, o turismo em massa tomou conta do lugar. Justo na hora da nossa partida. Por algumas horas, a ilha foi só nossa, sob um céu estrelado inesquecível. Infelizmente, o turismo predatório cobra seu preço até nos paraísos mais isolados.
Noite 2 – Carneiros e Costa Sul
Partimos da ilha assim que os barcos de passeio e jet skis começaram a chegar. Graças a Deus.
O mar estava lindo. Algumas nuvens diminuíam um pouco a transparência da água, mas ganhávamos um vento perfeito rumo à Praia dos Carneiros, um dos cartões-postais mais famosos de Pernambuco.
Entramos pelo canal e seguimos direto ao banho de argila, quase em frente à icônica Igreja de São Benedito, construída no século XVIII, em terras de antigos engenhos de açúcar. Um símbolo da ocupação colonial e da riqueza que moldou essa região por séculos.
Só eu e Edna encaramos a argila — os outros ficaram com nojinho. O local onde deixamos os barcos parecia uma piscina natural praticamente exclusiva.
Depois atravessamos para as fotos clássicas na igrejinha. Um guarda logo apareceu avisando que não era permitido parar barcos ali. Com a romaria constante de turistas e a faixa de areia curta, fizemos o registro e caímos fora. Turismo em excesso: gente demais, poses demais, tudo rápido demais.
Tentamos parar na coroa da saída do canal, mas com a maré baixando e a muvuca formada, resolvi seguir viagem. Saímos do canal e pegamos “estrada livre”, rumo a Peroba, passando por praias belíssimas como Tamandaré e São José da Coroa Grande, antigas vilas de pesca que ainda guardam muito da vida simples do litoral sul e tiveram papel importante no escoamento do açúcar no período colonial.
Pernoite na charmosa Pousada Chalés de Maragogi, do velejador Falcão. Um alívio dormir em apartamento com ar-condicionado. Mesmo assim, passei a noite inteira enjoado — certamente consequência das ostras e seus parentes consumidos em São José. Ostra é perigosa. Perrengue também faz parte da experiência.
Último dia
Acordei cedo, tomei café e fui montar o barco. Às 9h29, já tinha feito até uma pequena velejada. Fiz amizade com um caruaruense chamado João, que me observava curioso enquanto eu montava o Hobie Cat 16. Convidei-o para uma voltinha — quando ele imaginaria velejar na vida?
O danado levou uma invertida no trapézio e acabou ficando de cabeça para baixo. Deve ter engolido um pouco de água salgada. Pelo sorriso, parece que gostou.
Edna não ficou muito feliz por eu ter saído para velejar sem pedir permissão, mas isso é normal — ela se aborrece com pouca coisa
.
Depois de sair do “trono”, nos despedimos do Falcão, simpático proprietário da pousada, um verdadeiro achado em Peroba. Seguimos viagem rumo a Maragogi e, finalmente, Japaratinga, ponto final da trip.
Paramos para um banho de mar no Caminho de Moisés e, de lá, seguimos costeando e desviando das pedras até chegar à pousada do Fred e da Cris, ele irmão de Guilherme. Fechamos a viagem com a famosa batata fria, peixe e um risoto de camarão inesquecível.
Conclusão
Foram cerca de 65 milhas náuticas de navegação costeira, costurando vento, mar e história ao longo do litoral de Pernambuco e Alagoas. Uma travessia feita de atrasos, decisões difíceis, risadas, perrengues inevitáveis e paisagens que ficam para sempre.
Mais do que uma viagem, foi uma experiência de amizade, parceria e liberdade — daquelas que continuam velejando na memória muito depois de os barcos estarem fora d’água.”
Mario Roberto Arantes Dubeux
Velejador e entusiasta do Hobie Cat

















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